“El Fin Del Mundo” – é como é apelidada a cidade mais austral da Terra, Ushuaia. Situada no extremo sul da América do Sul, em uma ilha chamada Terra do Fogo, esta cidade argentina nasceu como colônia penal e hoje em dia é um movimentado centro turístico nos confins da Patagônia.
A situação geográfica da cidade é esplêndida. É ali que a Cordilheira dos Andes termina, encontrando o mar, resultando em uma paisagem exuberante em que picos nevados se justapõem à imensidão azul.
o entanto, embora a chegada e partida pelo céu pareça ser uma opção segura e conveniente, ela não oferece a aventura que é chegar em Ushuaia por terra. Apresento-lhes, então, A estrada para o fim do mundo.
O roteiro tem início em Rio Gallegos, a última cidade da Argentina Continental. É uma cidade feia, sem graça e sem muitos atrativos (o recomendável seria fazer esta viagem direto de El Calafate, com escala em Rio Gallegos para um pernoite, por exemplo, que foi o meu caso). Ali se toma um ônibus (TAQSA/Marga, saídas por volta das 8h-10h, custo aprox. Ar$ 425 pp.) em uma rodoviária pequena e muito movimentada, cheia de turistas.
O ônibus parte rumo a sul pela Ruta Nacional 3. Estamos ainda na margem atlântica da Patagônia, cuja paisagem é dominada por planícies extensas cobertas por estepes ou grama. Poucos quilômetros adiante, cruza-se a fronteira chilena. Logo, paramos em um posto aduaneiro e seguimos agora pela Ruta 255, em território chileno. Esta rodovia, na verdade, tem como destino Punta Arenas, a cidade mais austral do Chile continental, mas o ônibus toma um desvio e entra na Carretera 257 em direção à Isla Grande de la Tierra del Fuego.
Esta estrada é interrompida no Estreito de Magalhães. Ali o ônibus embarca numa balsa, os passageiros descem e se acomodam na ala turística da embarcação, com vista para o Canal; há também um balcão onde são servidos cachorros-quentes (por preços nada módicos) e bebidas. Pode-se descansar em bancos estofados ou acompanhar a travessia e tirar fotos de uma passarela externa.
O Estreito de Magalhães é um canal natural que liga os oceanos Atlântico e Pacífico e foi por cerca de 4 séculos o único acesso entre estes oceanos, até a construção do Canal do Panamá em 1914. Foi pioneiramente navegado por Fernão de Magalhães em sua volta ao mundo, e até hoje é considerado uma travessia muito difícil, mas evita o Cabo Horn, no extremo sul da América do Sul.
Finalmente, a balsa atraca – seja bem-vindo à Terra do Fogo.
Não demora muito, o asfalto termina e a viagem segue numa estreita e tortuosa estrada de ripio. A paisagem começa a mudar: surgem colinas, e a grama passa a ficar mais alta e homogênea. Observam-se criações de ovelhas e cabras, e agora são avistados lagos onde se aglomeram aves. Estamos cruzando de ônibus o que parece ser uma estradinha local levando a lugar nenhum.
Como é de se esperar, não faltam imprevistos e contratempos: como a estrada é de ripio, pode acontecer de furar um pneu, ou, como a estrada é muito estreita – e relativamente movimentada – se dois ônibus se cruzarem pode acontecer de um deles cair para fora da estrada e “encalhar”.
Antes de cruzar a fronteira de volta à Argentina paramos num posto fronteiriço chileno, muito interessante, com vendinhas de tranqueiras e comidas, uma delas um pequeno trailer (evite o chocolate quente deste lugar, é intragável). Há uma pequena área comum na qual os passageiros podem aproveitar para tomar alguma coisa e curtir o sol.
Seguimos viagem, cruzamos a fronteira novamente, e volta o asfalto (que alívio). A rodovia logo se torna beira-mar e nos leva a Rio Grande, a última cidade antes de Ushuaia.
A partir dali o ambiente muda completamente. Passamos a cruzar regiões montanhosas, e a vegetação agora passa a ser dominada po coníferas. A Cordilheira dos Andes vem se aproximando cada vez mais. A rodovia faz um contorno muito amplo, margeano um vasto corpo d’água: o Lago Fagnano (um lago glacial, como não poderia deixar de ser na Patagônia). O lago marca nossa posição: chegamos no pé da cordilheira. A estrada agora é muito sinuosa, acompanhando as montanhas. Uma parada nos é permitida para contemplar o lago ao pôr do sol. A vista é maravilhosa.